Entenda como funciona o ataque relay em carros com entrada sem chave e quais medidas realmente bloqueiam o sinal do chaveiro. Reunimos passos práticos, defesas de fabricantes e o que dizem as seguradoras.
O Que É o Roubo de Carro por Relay de Chave Keyless?
O roubo por relay é um tipo de furto em que o criminoso captura e amplifica o sinal do seu chaveiro (key fob) para enganar o carro e convencê-lo de que a chave está por perto. Sem arrombamento, sem vidro quebrado, sem alarme disparando: o veículo simplesmente destranca e liga. De acordo com a Locksmiths.co.uk, esse tipo de furto pode levar só 20 a 30 segundos, e a polícia britânica relata casos concluídos em menos de dois minutos com um sistema de relay, segundo dados da Admiral.
O problema cresceu num ritmo impressionante. Segundo a Tracker, 92% dos carros que a empresa recuperou ao longo de um ano tinham sido levados sem que os ladrões usassem as chaves — número citado pela Leasing.com em julho de 2021. Já em 2017, essa mesma empresa apontou que 80% de todos os veículos roubados e depois recuperados foram levados sem a chave original, de acordo com o Identity Management Institute. Hoje, o crime de entrada sem chave já responde por quase dois terços de todos os furtos de veículos, conforme o Crime Survey, e vem alimentando uma onda de roubos nos Estados Unidos e no Canadá que custa bilhões por ano ao setor automotivo, como destaca a PlaxidityX.
Como Funciona um Ataque Relay Passo a Passo
No fundo, o mecanismo do ataque relay é enganosamente simples: consiste em interceptar e manipular a comunicação entre dois dispositivos para convencê-los de que estão a poucos centímetros um do outro, quando na verdade podem estar separados por dezenas de metros. Nos carros com entrada sem chave, o sistema se apoia em RFID ou em métodos sem fio parecidos para verificar o tempo todo se o chaveiro está por perto — e é justamente essa checagem de proximidade que os ladrões exploram. Para isso, eles trabalham em dupla, com dois componentes que funcionam como uma espécie de ponte invisível. O primeiro fica posicionado junto ao carro, geralmente escondido perto da maçaneta ou do para-choque; o segundo acompanha a vítima, muitas vezes encostado na parede externa da casa ou no corredor de um estacionamento. Na prática, um equipamento capta o sinal que o veículo envia ao chaveiro, enquanto o outro capta a resposta do chaveiro e a retransmite ao primeiro. Assim, os dois aparelhos preenchem a distância física entre a chave e o automóvel, e o sistema passa a acreditar que o chaveiro está ali do lado. O carro então destranca e a ignição pode ser acionada. Do ponto de vista do dono, não houve arrombamento, quebra de vidro nem alarme: tudo acontece como se ele mesmo estivesse abrindo o veículo com a chave no bolso.
Assim que essa ponte de sinal é criada, o carro passa a acreditar que o chaveiro está ali do lado, a um ou dois passos de distância. Não importa se a chave de verdade está quietinha na mesa de cabeceira. As portas destrancam e a ignição libera como se o dono estivesse presente. É justamente por isso que os ladrões costumam agir em dupla: um segue a vítima até uma loja ou um estacionamento para captar o sinal do chaveiro, enquanto o comparsa fica posicionado ao lado do veículo, pronto para retransmitir o comando na hora certa. Em casas com garagem ou entrada, o ataque acontece com a chave dentro do imóvel, muitas vezes enquanto a família janta ou assiste à TV, e ninguém percebe nada de anormal — não há barulho de vidro quebrado nem alarme disparando. Vale lembrar que esse tipo de roubo é rápido: segundo a Locksmiths.co.uk, pode levar só 20 a 30 segundos, e a polícia relata casos resolvidos em menos de dois minutos. Ou seja, quando o proprietário dá por si, o carro já foi embora.
Antes de entrar nas formas de prevenção, vale a pena entender o que está por trás do roubo por relay: o PKES (Passive Keyless Entry and Start), ou sistema de entrada e partida passivas, que hoje está presente em boa parte dos carros modernos. Na prática, ele fica trocando sinais de baixa potência com o chaveiro o tempo todo — você chega perto, o carro reconhece a chave e destrava, muitas vezes sem você precisar apertar nada. Só que essa comodidade tem um lado ruim: é exatamente essa conversa constante entre carro e chave que abre brecha para o relay. Como o sistema foi pensado para funcionar por proximidade, basta alguém "esticar" esse alcance com os equipamentos certos para enganar o veículo. E não é teoria. Em 2018, pesquisadores da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, demonstraram publicamente um ataque relay contra sistemas de entrada sem chave, confirmando que a vulnerabilidade era real e podia ser explorada na prática.
Quais Carros e Chaveiros São Mais Vulneráveis?
Nenhum carro está a salvo: qualquer modelo com entrada sem chave pode cair num ataque relay, de um hatch popular a um SUV de luxo. A lógica dos ladrões é bem direta — se o carro troca sinal com a chave por radiofrequência, dá para interceptar e ampliar essa comunicação. Ou seja, o risco não fica restrito a carros velhos ou com tecnologia ultrapassada. Muito pelo contrário: modelos zero, inclusive de marcas premium como Ford, BMW, Mercedes-Benz e Audi, também ficam expostos quando não têm camadas extras de proteção. Essas montadoras, aliás, andam colocando sensores de movimento nos chaveiros justamente para complicar a vida de quem tenta o relay — sinal de que o problema chegou até em quem investe pesado em segurança. As vans e os utilitários entram na mesma lista. Muitos usam sistemas keyless parecidos com os dos carros de passeio e, como costumam passar horas parados na rua ou na porta de comércios, viram alvo fácil para os mesmos métodos. No fundo, a vulnerabilidade tem menos a ver com a marca ou o preço e mais com o tipo de sistema instalado e com as proteções que o dono resolve adicionar por conta própria.
Nem tudo está perdido, porque os fabricantes reagiram — e essa reação mudou bastante o jogo nos últimos anos. Ford, BMW, Mercedes-Benz e Audi, por exemplo, passaram a instalar sensores de movimento dentro dos chaveiros. A lógica é simples: se a chave fica parada por um certo tempo — durante a noite, enquanto você dorme, ou esquecida dentro de casa —, o fob para de emitir códigos. Sem sinal sendo transmitido, não sobra nada para o ladrão interceptar ou amplificar, e o relay perde completamente o sentido. É uma solução até que simples, mas eficaz, porque ataca justamente a janela de oportunidade que os criminosos exploram: o momento em que a chave está imóvel e desprotegida. Já Jaguar e Land Rover foram além e adotaram rádio de banda ultralarga (UWB) em alguns modelos mais recentes. Em vez de mandar o sinal de um jeito previsível, como fazem os sistemas tradicionais de RFID, essa tecnologia transmite de formas diferentes e calcula a distância real entre a chave e o carro com muito mais precisão. Resultado: o código fica bem mais difícil de copiar, e o carro consegue perceber quando a chave está longe, mesmo que alguém tente "colar" os dois dispositivos. A equipe de sinistros da Admiral relata justamente menos casos de roubo por relay por causa dessa tecnologia — o que mostra que o investimento em sensores de movimento e UWB tem dado resultado na prática. Ainda assim, é bom não baixar a guarda: o risco não foi eliminado, apenas reduzido, e nem todo modelo ou versão conta com essas proteções de fábrica.
Como Prevenir o Roubo por Relay em Casa e na Rua
A recomendação que mais aparece nos manuais de polícia e nos avisos das seguradoras é bem simples: guarde o chaveiro dentro de um bloqueador de sinal sempre que não estiver usando. Na prática, isso quer dizer uma bolsa Faraday — aquelas com forro metálico que barram a passagem das ondas de rádio — ou então um estojo com bloqueio RFID, que faz basicamente a mesma coisa. E vale entender o porquê: o relay depende justamente de capturar o sinal que o chaveiro fica emitindo o tempo todo. Se esse sinal não sai do estojo, o ladrão não tem o que retransmitir para o carro. Por isso, manter as chaves longe de portas e janelas também ajuda bastante. Mesmo dentro de casa, o sinal pode ser captado do lado de fora, e é aí que mora o perigo em apartamentos de térreo ou em casas cuja porta da frente fica perto do estacionamento. Outro cuidado que vale a pena é desligar o sinal sem fio do chaveiro durante a noite, quando o modelo oferece essa opção — em alguns, basta apertar certos botões; em outros, o transmissor se desativa sozinho depois de um tempo parado. Mas antes de contar com esse recurso, consulte o manual do carro para confirmar se o seu modelo realmente permite desativar o sinal, já que muitos não trazem essa possibilidade.
Proteger o carro contra o roubo por relay não é questão de uma única medida — funciona melhor quando você empilha camadas de defesa, da chave até a parte externa da casa. Comece pelas chaves: se o carro foi comprado usado e você não recebeu todos os jogos, vale reprogramá-las na concessionária ou com um chaveiro automotivo de confiança. Pode parecer exagero, mas é simples de entender: uma chave antiga que ficou com o dono anterior ainda pode abrir o veículo, e a reprogramação corta esse acesso. Depois, invista em segurança física, como trava de volante e bloqueador de rodas — itens visíveis, que desanimam o ladrão e custam pouco perto do prejuízo de perder o carro. Some a isso iluminação externa com sensor de movimento e câmeras do lado de fora: a luz que acende de repente e as imagens gravadas servem tanto para dissuadir quanto como prova. Por fim, tem o imobilizador fantasma (ghost immobiliser), que barra clonagem de chave, interferência de sinal e roubo por relay. É a solução mais robusta da lista, mas também a mais cara — por isso acaba ficando para quem quer o pacote completo.
A lista a seguir reúne as principais medidas de proteção, organizadas da mais barata para a mais cara, mostrando também o nível de proteção que cada uma oferece na prática.
| Medida | Como funciona | Nível de proteção |
|---|---|---|
| Bolsa Faraday ou bloqueador RFID | Bloqueia o sinal do chaveiro dentro de casa ou na rua | Alto contra relay |
| Desligar o sinal do chaveiro à noite | Interrompe a emissão de códigos quando o carro está parado | Alto, se o modelo suportar |
| Trava de volante e bloqueador de rodas | Dificulta a condução mesmo após destrancar o carro | Médio, dissuasivo |
| Imobilizador fantasma | Exige código secreto para dar partida no motor | Muito alto |
| Garagem, área iluminada ou com câmeras | Reduz a janela de ação dos ladrões | Médio |
Uma alternativa simples e barata ao bloqueador de sinal profissional é guardar o chaveiro dentro de uma lata ou caixa de metal — uma espécie de gaveta Faraday improvisada, que cria uma barreira física e impede que o sinal chegue até o ladrão. Vale testar em casa: aproxime o chaveiro da porta do carro ainda dentro do recipiente e confira se ela não destrava. Outra proteção já embutida em alguns chaveiros básicos é o desligamento automático após um período de inatividade. Nesse caso, se alguém tenta um ataque relay, o carro e a chave até chegam a se comunicar, mas o veículo percebe que a chave não está fisicamente próxima e ignora o comando, frustrando a tentativa. Por fim, manter o software do carro atualizado — pelo próprio sistema multimídia ou em uma concessionária — também corrige falhas de segurança conhecidas e fecha brechas que os ladrões costumam explorar.
Clonagem de Chave e Roubo via CAN Bus: Riscos Relacionados
O relay não é a única ameaça aos carros sem chave. Na clonagem de chave (key emulation), um dispositivo sequestra a radiofrequência e se passa pela chave verdadeira; esses aparelhos podem até ser disfarçados de objetos comuns, como uma caixa de som. É uma técnica diferente do relay, mas com o mesmo objetivo: enganar o sistema do veículo para destrancá-lo e ligá-lo sem a chave original.
Já o roubo via CAN bus, conhecido como hacking de farol, explora um ponto fraco do carro, muitas vezes o farol, para acessar o computador de bordo. Os ladrões inserem comandos falsos que desativam o imobilizador e ignoram a entrada sem chave, permitindo dirigir embora. Vans e utilitários também são alvos desses métodos. A recomendação é combinar camadas de proteção — bloqueio de sinal, imobilizador fantasma e atualizações de software — porque nenhuma medida isolada elimina completamente o risco.
O Seguro Cobre Roubo de Carro Keyless?
A Admiral afirma que todas as suas apólices de seguro automotivo cobrem roubo de carro keyless. No entanto, as condições variam bastante entre seguradoras, e o proprietário deve verificar a redação da própria apólice para entender como são tratados os sinistros de roubo quando não há sinais de arrombamento. Esse detalhe é importante: como o relay não deixa marcas de violação, algumas seguradoras podem exigir provas adicionais de que o furto realmente ocorreu.
As estatísticas de ataque relay são difíceis de obter, porque muitos casos não são reportados ou nem sequer identificados como relay. Isso significa que o número real de incidentes pode ser maior do que os dados oficiais sugerem. O mercado de segurança automotiva foi estimado em cerca de US$ 10 bilhões entre 2018 e 2023, segundo o Identity Management Institute, o que mostra o tamanho do investimento global para conter esse tipo de crime.
Vale lembrar que bloqueadores de sinal e recipientes metálicos reduzem, mas não eliminam o risco. Trancar o carro ao se afastar ainda pode permitir que um ladrão equipado com relay capture dados suficientes para falsificar o chaveiro. Por isso, a estratégia mais eficaz é combinar tecnologia, hábitos de segurança e verificação das coberturas do seguro.
Perguntas Frequentes
Como funciona um ataque relay em um carro keyless?
Dois ladrões trabalham em dupla. Um fica perto do seu chaveiro com um transmissor que captura e amplifica o sinal de baixa energia; o outro fica ao lado do carro com um dispositivo que imita o chaveiro. O veículo acredita que a chave está a um ou dois passos e destranca, liberando a ignição.
Qual é a forma mais rápida de impedir que o sinal do meu chaveiro seja retransmitido?
Guarde o chaveiro em uma bolsa bloqueadora de sinal, como uma bolsa Faraday ou um estojo com bloqueio RFID, sempre que ele não estiver em uso. Polícias e seguradoras também recomendam manter as chaves longe de portas e janelas e desligar o sinal sem fio do chaveiro durante a noite, se o carro permitir.
Carros mais novos ainda são roubados por ataque relay?
Qualquer carro com entrada sem chave pode ser alvo, mas os fabricantes adicionaram defesas. Ford, BMW, Mercedes-Benz e Audi instalam sensores de movimento que param de emitir códigos quando o chaveiro está parado, enquanto Jaguar e Land Rover usam rádio de banda ultralarga (UWB) em alguns modelos mais recentes, o que é mais difícil de copiar.
O seguro cobre roubo de carro keyless?
A Admiral afirma que todas as suas apólices cobrem roubo de carro keyless. As coberturas e condições variam conforme a seguradora, então verifique a redação da sua apólice para saber como os sinistros de roubo são tratados quando não há sinais de arrombamento.


